Caixa d'água de 2,2 milhões de litros seca é um monumento ao descasoPor Oswaldo Viviani
Todo dia Gardênia Diniz Serra, de 17 anos, faz tudo sempre igual. E seis vezes, pelo menos, ao dia. Pega um balde, põe o filho de um ano e cinco meses no colo e vai morro abaixo em busca de água. O poço fica a uns 600 metros de sua casa de taipa, na Rua da Torre, no bairro Piçarreira, um dos mais carentes de Viana.
Como dizem, pra baixo – e com o balde vazio – todo santo ajuda, mas a volta é que são elas. Gardênia encara seis vezes ao dia a subida íngreme do morro com o filho no colo e o balde d’água na cabeça.
“É cansativo, mas não tem outro jeito. Ficar sem água é que não dá”, disse a jovem ao repórter do JP na Estrada, que tentou carregar o balde com água nos cerca de 100 metros planos do percurso, mas logo desistiu...
O martírio diário de Gardênia em busca de água é o mesmo das mais de 150 famílias pobres que moram na Piçarreira. “Os mais velhos têm que pagar pros outros ‘pegá’ água lá embaixo ou esperar caridade dos vizinhos”, afirmou outra moradora, Maria Francisca da Silva, 28 anos, 4 filhos.
Mas o que mais deixa os moradores da Piçarreira indignados é que bem ali, vizinha a eles, se ergue imponente uma caixa d’água com capacidade para 2,2 milhões de litros, mas que nunca foi abastecida com uma gota sequer do precioso líquido.
A obra foi concluída em dezembro de 2009 – portanto, há um ano e meio – e custou 2 milhões e 527 mil reais. Desde então, virou um monumento ao descaso.
Tudo porque a Prefeitura de Viana não cumpriu sua contrapartida nos três convênios federais que foram assinados com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), responsável pela liberação das verbas.
Com isso, a obra parou em sua primeira fase (construção), faltando ainda construir uma adutora para levar água à caixa. A adutora sairia da estação de tratamento do Serviço Autônomo de Águas e Esgoto (SAAE), que recebe água do igarapé do Engenho (povoado Ibacazinho).
Os convênios referentes à caixa d’água da Piçarreira podem ser cancelados, caso a Prefeitura descumpra os prazos finais para providenciar sua contrapartida – que é simplesmente o encaminhamento dos documentos exigidos pelo governo federal quando da assinatura dos convênios.