Assumam, filmes de ação com supertiras são legais. Esqueça aquelas tranqueiras com o Dolph Lundgren, Mark Dacascos ou Steven Seagal, tô falando de Duro de Matar e Máquina Mortífera, de Dirty Harry e Desejo de Matar, de Robocop e do Keanus Reeves em Caçadores de Emoção e Velocidade Máxima (assumam também que ele tá ótimos nesses papéis). Ou seja, os caras que você queria ser quando brincava de polícia e ladrão com aquelas pistolas de plástico que vinham com uma cartela de espoleta.
A tradição do supertira remonta (eu acho) à Pré-História, quando os nossos antepassados iam caçar e se metiam em altas aventuras correndo atrás dos javalis; é algo intrínseco ao homem. Mas vivemos em um mundo onde o obstáculo mais difícil pra conseguir comida é apenas arranjar coragem pra levantar e comprar aquela lata de Fiambre na venda da esquina.
O mundo moderno nos amansou, senhores. Então, quando vê o Righs em Máquina Mortífera rodando no chão ao mesmo tempo em que acerta todo os bandidos, o indivíduo rapidamente se projeta naquele personagem: os meliantes se transformam em chefes, motoristas de ônibus que não pararam no ponto ou o caixa do supermercado que não ensacou suas compras.
O gênero dos supertiras sumiu um pouco nos anos 90, dando espaço pro suspense policial, na linha de O Silêncio dos Inocentes e Seven, e pros anti-heróis nos anos 2000, como Mandando Bala e Carga Explosiva. Mas, às vezes, bem às vezes mesmo, surge alguma pérola do tiroteio desenfreado mesclado a bons roteiros e diálogos certeiros (ou não), e Chumbo Grosso (Hot Fuzz no original) é um deles.
Fui atrás desse filme mais pelo Simon Pegg, que co-escreveu e estrelou Todo Mundo Quase Morto (Shaun of the Dead, que já mencionei aqui) e Paul (esse é Paul mesmo em inglês). Simon Pegg é Angel, um supertira londrino transferido pra uma cidadezinha do interior onde nada acontece. Pelo menos até sua chegada, quando assassinatos estranhos começam a acontecer. Ele conta com a ajuda do seu parceiro Danny, o gordinho que também tá nos outros dois filmes que eu mencionei lá em cima, fã de supertiras e que a toda hora pergunta se Angel assistiu a esse ou aquele filme. Eu resumindo assim deve parecer um lixo, mas vale MUITO a pena (dei caps lock porque vale mesmo), então vê se vocês baixam aí ou compram nas Americanas que tá só 13 dinheiros.
Antes de terminar, um fato engraçado que aconteceu por esses dias: uma amiga da minha namorada casou com um cara chamado John McClane. O CARA CHAMA JOHN McCLANE! Queria ser amigo dele só por causa do nome.
Luís do Vale aproveita a oportunidade pra perguntar se alguém aí chama policiais de tiras.
Finalmente, assisti a “Os Vingadores, um grande sucesso do cinema com Robert Downey Jr., Samuel L. Jackson e Scarlett Johansson”, como futuramente será anunciado na Tela Quente. Já tava me sentindo um pária, situação parecida quando saiu O Parque dos Dinossauros e eu tive que esperar sair em VHS porque na minha cidade não tinha cinema. Na verdade, havia um, mas era pornô.
E, olha, que filme. A sensação de ver Os Vingadores em tela grande se resume ao comentário do menino que tava sentado na minha frente: “ÉÉÉÉÉGUAS!”. Sei que tem o Batman do Nolan, o Homem-Aranha do Sam Raimi, os X-Men do Bryan Singer e o Superman do Richard Donner, com mais de 30 anos e ainda um clássico, mas Vingadores é único: é filme sobre uma equipe de super-heróis onde todos têm sua vez (Lembram que a trilogia dos mutantes tá mais pra “Wolverine & Sua Turma?). O diretor e roteirista Joss Whedon & Cia. conseguiram unir os medalhões da Marvel em uma produção que agrada tanto ao leitor de quadrinhos quanto ao cara que só gosta de filmes de aventura com coisas explodindo e pessoas descendo o cacete umas nas outras. O roteiro é redondinho e todos os personagens têm espaço na trama; tem Homem de Ferro Vs. Thor, o Thor lutando contra o Hulk e todo mundo dando uma surra em ETs; tem o melhor Hulk já feito e tem também a Scarlett Johansson. É um sonho de garoto que guardava o dinheiro do lanche da escola pra comprar gibi realizado.
Por esses dias também revi Dança com Lobos e, como sempre depois que o assisto, deu vontade de deixar crescer um bigode igual ao do John Dunbar, personagem do Kevin Costner. Minha única preocupação é que, em uma escala de 0 a 10 de tosqueira, eu alcance a marca de 20. Mas, ao mesmo tempo, acho que todo homem deveria cultivar um bigode uma vez na vida. Creio eu que bigodes estão para um homem como a maternidade está para as mulheres.
Quero ser um velhote na linha daquele vovozinho gordinho do filme Cocoon, com um bigodão enfeitando a cara e uma pança enorme completando o conjunto.
Além do mais, seria legal participar de concursos de bigodes.
Luís do Vale ainda hoje se emociona com Cocoon.
Por Davi Coelho
A cena é conhecida de todos nós: geralmente nos últimos momentos do filme, o personagem apaixonado resolve deixar tudo para trás e parte em desabalada carreira rumo aos braços do amor verdadeiro. Já que na vida real cenas assim são bem raras, vamos a cinco personagens maratonistas do amor - e donos de um surpreendente preparo físico. Atenção: dependendo do seu grau de exigência, este post pode conter spoilers.
5 - O Amor Não Tira Férias (The Holiday, 2006)
.jpg)
Quem corre? – Amanda Woods (Diaz)
A troco de que? – Entregar-se aos braços de seu amado, Graham (Law).
Apesar do título calhorda, este belo chick-flick assinado pela competente Nancy Meyers é de lavar a alma. São duas histórias em uma e o trânsito equilibrado entre elas, define o ritmo do filme. Em linhas brutais: o eixo Cameron Diaz/Jude Law corresponde ao senso comum das comédias românticas modernas e o eixo Kate Winslet/Jack Black percorre um caminho mais ousado e menos comum. É assim que, depois de superar uma cascata de empecilhos, a personagem de Cameron Diaz corre, trupicando na neve, para se jogar nos braços do (na época menos careca) Jude Law.
4 - Manhattan (Manhattan, 1979)
.jpg)
Quem corre? – Isaac Davis (Allen)
A troco de quê? – Impedir que sua adorada Tracy (Hemingway) parta para Londres!
Maravilha visual de Woody Allen que, em parceria com o mestre da fotografia Gordon Willis (o mesmo de “O Poderoso Chefão”), deixou Manhattan ainda mais linda em preto e branco. A história gira em torno da paixão entre Isaac Davis (Allen), de 42 anos e Tracy (Mariel Hemingway), de 17. A disparidade nas idades do casal deixa Davis inseguro e o leva a se envolver com Mary Wilkie (Diane Keaton). Quando ele finalmente se permite ouvir seu coração, nada segura sua resfolegante carreira rumo aos braços de sua amada, que estava de malas prontas pra Londres. Corre, Woody!
3 - Corra Lola, Corra(Lola Rennt, 1998)
.jpg)
Quem corre? – Lola (Potente)
A troco de quê? –Recuperar a grana perdida por Manni (Bleibtreu), o namorado vacilão.
Provavelmente a maratonista mais dedicada da lista, a obstinada Lola (Franka Potente) precisou correr contra o tempo para salvar a pele do namorado Manni (Moritz Bleibtreu). O sujeito portava uma imensa quantidade de dinheiro que devia ser entregue ao chefe da quadrilha de bandidos à qual ele pertencia, mas acaba perdendo a bolsa cheia de grana no trem. Lola dá início a uma correria desenfreada para recuperar o dinheiro num espaço de vinte minutos (roubar um banco? pedir emprestado?), resgatando o namorado do pagamento mais caro de todos: sua vida. O filme ficou famoso pela montagem ensandecida que lança mão de vários recursos visuais, contando a mesma história por três vezes, de perspectivas e resoluções diferentes.
2 - Harry & Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally..., 1989)
.jpg)
Quem corre? – Harry Burns (Crystal)
A troco de quê? – Recuperar o amor de Sally Albright (Ryan) em pleno Réveillon.
‘Men and women can't be friends because the sex part always gets in the way’. Injustamente estigmatizado pela cena em que Meg Ryan simula um orgasmo em plena lanchonete, o filme de Rob Reiner é um marco do gênero, ao melhor estilo guerra dos sexos. O trunfo aqui é mesmo a verborragia esperta e neurótica dos diálogos escritos por Nora Ephron (gênia). Mas há ainda um bom bocado de piadas visuais, a música de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, as paisagens de Nova York - ingredientes que tornam a mistura tão charmosa e especial. A história, que se passa em 11 anos de idas e vindas, é intercalada por depoimentos reais de casos de amor que deram certo. Difícil resistir a reprises e mais reprises e à cena final, com Harry (Crystal) correndo desesperadamente para encontrar a desconsolada Sally (Ryan) em plena noite de Réveillon.
1 - A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate, 1967)
.jpg)
Quem corre? – Benjamin Braddock (Hoffman)
A troco de quê? – Resgatar a bela Elaine Robinson (Ross) do altar
Clássico definitivo de Mike Nichols (“Closer – Perto Demais”), “A Primeira Noite de Um Homem” traz um Dustin Hoffman um pouco velho demais para o papel de Benjamin Braddock, um garoto recém-formado que retorna pra casa depois dos anos de universidade. Ele não esperava que a amiga da família, a famosa Mrs. Robinson (Anne Bancroft) fosse dar margem para a icônica indagação “Are you trying to seduce me?” e muito menos que ele iria se envolver com sua linda filha, Elaine Robinson (Katharine Ross). Aturdido por uma série de impasses, Ben Braddock (esse nome é mesmo ótimo) é compelido a correr léguas e léguas em busca do amor de sua Elaine.
Por Davi Coelho
Criados na década de 60 como uma resposta da Marvel à Liga da Justiça da DC Comics, Os Vingadores reúne os heróis de peso concebidos por Stan Lee e Jack Kirby num pelotão indestrutível. A fusão dos complexos universos de cada herói funciona nas inúmeras edições de quadrinhos, mas o que pensar sobre a assembleia recém-convocada para este Os Vingadores (The Avengers, 2012), no cinema?
Dirigido e roteirizado por Josh Wheldon - criador de séries como “Firefly” e “Buffy – A Caça-Vampiros”- a narrativa começa quando o poderoso “cubo cósmico” (o tal Tesseract), alvo das pesquisas da S.H.I.E.L.D. de Nick Fury (Jackson), é roubado, tornando-se uma ameaça à vida na Terra. O plano de utilização desta fantástica fonte de energia é do maligno vilão Loki (Hiddleston), de quem falaremos adiante.

Com um backstory bem desenvolvido graças aos lançamentos anteriores da Marvel Studios, a trama de Wheldon fica bem balizada. Promovendo a ‘entrada de cena’ dos protagonistas gradualmente, ao passo que a ameaça do Tesseract se torna mais urgente, vamos sendo apresentados aos já familiares personagens. Assim é fácil entender a postura autoritária do Capitão América (Chris Evans), que traz consigo a bagagem do rigor e disciplina do exército, aos poucos se sobressaindo como um líder nato, distribuindo as competências de cada um enquanto equipe.
Na frente científica (e cínica) da trama, o Homem de Ferro (Downey Jr.) irrompe entre as cordas envenenadas do AC/DC - assinatura musical do personagem, que traduz a irreverência e autossuficiência característicos de Tony Stark. Por outro lado, Hulk (Ruffalo), o monstro verde alter-ego de Bruce Banner, depois de migrar em produções diferentes, alcança aqui o potencial esperado - inclusive esteticamente mais eficaz que as versões anteriores. As conversas entre Dr. Banner e Stark atendem ao que pode se ansiar de um roteiro escrito por um nerd, para nerds.
Consistente no estranhamento com a raça humana, o asgardiano Thor (Hemsworth) mostra-se dividido entre a causa dos Vingadores (uma vez que a Terra está sendo atacada por sua gente) e a luta contra o próprio irmão. Já o Gavião Arqueiro (Renner), um personagem notadamente secundário, tem seu destaque ao ser manipulado a favor dos planos do vilão. E a Viúva Negra (Johansson) oferece um bem-vindo contraste com os demais heróis – não apenas pelo fato de ser a única mulher da equipe. Longe de contar com poderes especiais como armaduras tecnológicas ou martelos mágicos, a heroína aposta na persuasão dos interrogatórios russos e nas coreografadas sequências de luta corpo-a-corpo.

Ver essa turma em ação é tão divertido quanto ver a Família Incrível ensinando uma lição ao Síndrome. A tônica de comédia de ação, no entanto, é levada às últimas consequências entre os muitos diálogos sarcásticos e gags visuais espalhadas ao longo de toda a trama. Somem-se a isto os planos pateticamente megalomaníacos do vilão Loki “ajoelhe-se diante de mim”, e a ameaça contra Os Vingadores perde força e se torna pífia. Afinal de contas, que grau de força um vilão precisaria ter para oferecer perigo à brigada dos maiores heróis da Terra? Desse modo, apesar de potencialmente devastadores, nem o cubo mágico (?) nem as monstruosas criaturas vindas de Asgard conseguem transmitir uma sensação real de perigo. Se uma das principais premissas das histórias de herói é o fato de haver um antagonista que represente um desafio igual ou maior que as forças do herói, aqui Loki não é para ser levado a sério nem por nós e nem pelos vingadores – e nada mais representativo que a cena em que o vilão, com seus chifres... jocosos, é tratado como brinquedo pelo gigante verde, com mais piadas saltando da tela.
O trunfo de Os Vingadores está, por tanto, no visual absolutamente fantástico (reforçado pelos efeitos do 3D) e no carisma de seus bem construídos heróis-celebridade - que devem voltar em momentos solo e, como entrega a cena extra depois dos créditos, para uma próxima aventura em equipe.
Vocês já devem saber que o José Padilha, diretor de Tropa de Elite, tá trabalhando em um remake de Robocop. Eu tenho uma opinião muito pessoal sobre remakes e sequências: assisto mesmo, apesar de quase sempre não gostar. Nem vou entrar no mérito de que refilmagens e sequências eternas são uma maneira segura (ou não, peguemos Power Rangers como exemplo) de um estúdio conseguir uma grana fácil em cima de franquias sólidas e com grande apelo comercial; nem vou comentar sobre a insegurança ou apenas preguiça de investir em tanta gente boa esperando por uma oportunidade.
Olha, eu já vi Robocop algumas dezenas de vezes e acho que o amigo Paul Verhoeven acertou a mão e fez um filme ainda atual, lá em 1987. Vi o 1º Robocop na Tela Quente em 91 ou 92 e ainda hoje me impressiono com o recurso dos telejornais e propagandas de TV que interferem na narrativa, com aquilo tudo de corrupção e megacorporações e com o Murphy atirando no saco do carinha que tentava estuprar a garota. E com os barulhinhos do Robocop se mexendo.
O filme é inteligente, é violento, tem um policial robô que guarda uma arma dentro da perna, e realmente não sei se há necessidade de um remake. Mas é claro que eu vou ver o Murphy detonando a bandidagem de novo, né.
Talvez essa mesmice do cinema mainstream tenha feito com que as séries de TV alcançassem um patamar de qualidade tão alto. Muita gente prefere investir seu tempo em dois episódios de um seriado do que em um longa-metragem. Esqueçam déficit de atenção, de ser mais cômodo assistir a um capítulo de Californication enquanto não dá a hora do ônibus ou de preguiça de passar 1 hora e meia vendo um filme. Falo de bons roteiros e produção esmerada (obrigado, Aurélio). Boardwalk Empire, Game of Thrones, Mad Men e Breaking Bad são apenas algumas que não me fazem passar por mentiroso.
Mas quem sou eu pra opinar sobre o assunto, não é mesmo? Todo Mundo em Pânico teve 3 sequências, então minha opinião não deve contar muito.
Luís do Vale acha até hoje que o Alpha de Powers Rangers tinha um comportamento meio estranho.
Por Davi Coelho

Camille perdeu seu casamento para a guerra. A Primeira Guerra Mundial, um conflito pedestre, com suas trincheiras cheias de lama, seus explosivos arranjados em armadilhas no chão, suas bombas com gases tóxicos. O filme de Serge Bozon acompanha a personagem em busca do marido François pelos fronts de batalha - as cartas que recebera já não dizem nada. Passando-se por homem, ela acaba encontrando o que restou do regimento nº 80, um grupo de quinze desertores, com seus uniformes e esperanças desgastados.
De alguma forma, a paleta de cores pastéis (azul e verde predominantes) parece traduzir a moral dos soldados que desistiram de lutar, exauridos de cansaço e descrença. Camille empenha-se para ser aceita, tenta ser útil. Segui-los é para ela, estar mais próxima do marido.
Bozon explora a alma dos combatentes longe do frenesi das batalhas de sangue e suor. Todos eles têm histórias para contar, lembranças de outros soldados que ficaram para trás, lembranças de suas vidas esperando por eles na França. E se o lirismo se traduz nas cores frias do filme, é a música que dá a resposta mais contundente: munidos de instrumentos rústicos, que parecem ter sido fabricados por eles mesmos, os desertores extraem canções que falam de amor. Camille nunca canta junto.
A inadequação de todos os personagens ao contexto da guerra é a inadequação de Camille aos momentos musicados do filme. O regimento nº80 funciona assim como um microcosmo da guerra. E Bozon sinaliza através de uma cena em que dois soldados brincam, visualizando no chão de terra o cenário do conflito, as formigas como soldados.
O filme talvez falhe por não preparar o espectador para as intervenções musicais, que a princípio surgem inesperadamente em cenas que sugeriam diálogos. O estilo das canções, característico dos anos 1960, briga com o cenário do filme, que se passa em 1917. Mas aqui o anacronismo na trilha sonora não é necessariamente um ponto negativo, já que a intenção de intensificar o lirismo da narrativa é bem sucedida e as músicas são executadas ali mesmo, pelos personagens. Os momentos de música seguramente foram planejados como peças de escapismo, o que pode ser notado numa cena em que um piano aparece e desaparece sem explicações. Já nas sequencias à noite, a fotografia artificial prejudica a suspensão da descrença.
Apesar disso, o singelo tratado antibelicista de Bozon funciona graças a sua abordagem cheia de sentimento. Camille permite diversas interpretações, mas ela é certamente a fagulha de esperança em meio ao pelotão de soldados musicais e tristes.
Texto escrito como parte da cobertura da Mostra do Cinema Francês Contemporâneo, em São Luís.
Nada mais inocente do que chegar em uma lanchonete e perguntar se a coxinha é do dia ou se tá boa. Senhores, EVIDENTEMENTE que o(a) atendente responderá que o salgado acabou de sair do forno e que a referida guloseima está ótima. O indivíduo trabalha no local, ou seja, nunca que ele vai denegrir a imagem do estabelecimento que possibilita seu ganha-pão. Mas pode ser que o vendedor tenha provado a coxinha e, realmente, ela esteja apetitosa. Pelo menos, para o paladar do balconista. Entenderam onde eu quero chegar? Provavelmente, não.
Queridos e estimados leitores, o que eu quero dizer é que gosto é algo relativo. A coxinha que fulano está ansioso para lanchar pode, na verdade, ser uma grandíssima porcaria. Claro que o sabor ou a falta dele pode ser mascarado com uma boa dose de maionese caseira temperada com orégano e cebolinha, mas com certeza ficará a sensação de que seria melhor ter comido bolachas cream cracker com manteiga em casa e economizado alguns trocados.
Certa vez, um amigo pediu que eu o recomendasse alguns filmes de gangsters, e citei Pulp Fiction e LA – Cidade Proibida. Não é que o herege odiou os dois filmes? Achou chatos, muito papo e pouca ação... O mesmo amigo em uma ocasião discorreu sobre a importância dos filmes American Ninja pro cinema de ação. Eu nem sabia que eles tinham importância em alguma coisa.
Outro exemplo de frequente discordância é a filmografia d’Os Trapalhões. Toda a crítica do cinema brasileiro é de comum acordo de que os melhores filmes do quarteto foram feitos nos anos 70. Eu defendo que a pérola de Renato Aragão e seus amigos é A Princesa Xuxa & Os Trapalhões, produzida no final dos anos 80. Referências a Mad Max, crítica às agressões sofridas pelo meio-ambiente, os saudosos Mussum e Zacarias... Um clássico, sem dúvida.
Mas também há filmes que, de tão ruins, chegam a ser bons, e acabam por alcançar sua redenção. Um dos meus preferidos e que se encaixa nessa definição é a “superprodução” Mega Shark Vs Giant Octopus. Explicando para os leigos que não entendem muito de inglês, o filme consiste em um épico encontro entre um megatubarão e um polvo gigante. Pra ser sincero, fui passando na velocidade 2 e parei apenas nos melhores momentos, quando as duas criaturas aparecem. Recomendo especial atenção à cena onde o tubarão pula do mar e derruba um avião.
Diz se tem como um filme desse ser ruim?
Apesar de tudo, Luís do Vale costuma perguntar se a coxinha tá boa.
O JP Social Club agora está no Facebook. Curta nossa página.
Enquanto milhões pessoas ao redor do mundo preparavam seus lanches pra comer durante a estreia da 2ª temporada de Game of Thrones, eu fazia o mesmo, mas sem a parte que envolve Game of Thrones. Como não tenho TV a cabo, pude apenas lamentar o fato de não ter recebido convites de amigos com acesso ao canal pago HBO.
Apesar da plena consciência de que na segunda-feira de manhã várias almas abençoadas disponibilizariam links para o episódio “The North Remembers”, e de saber que no fim do dia ele já estaria no meu pendrive, não há nada como se sentir parte de algo maior. Algumas pessoas participam de passeatas contra a corrupção no Congresso Nacional, outras curtem season première. Muito normal.
Mas sabe o que é engraçado? EU NUNCA ASSISTI À UMA SEASON PREMIÈRE! Sempre to ocupado não tendo TV a cabo, então fica difícil acompanhar estreias e, consequentemente, a todos os outros episódios.
Paradoxalmente, nunca gostei de ir a estreias de cinema. Muita gritaria, muita bagunça, muito barulho de comida sendo mastigada... Mas o pior são os caras que comentam os filmes DURANTE os filmes.
Lembro que, quando assisti a O Ensaio Sobre a Cegueira, tinha um cara na fileira da frente explicando pra uma garota como o livro era uma alegoria da sociedade, enaltecendo a virtuose e a escrita única do Saramago e ressaltando a beleza gráfica da adaptação. Esse aí pelo menos usou a chatice com fins nobres, e até que falava baixo. (O fulano foi esperto: com o tempo, ele foi diminuindo o tom de voz até ter que falar praticamente no ouvido da moça. Amigos, anotem essa dica.)
Olha, eu li O Senhor dos Anéis bem antes de ver os filmes e não dava uma de engraçadinho na sala de cinema recitando a riminha do Um Anel em voz alta nem explicava durante a exibição o porquê de o Boromir não ser um escroto traidor.
Vejam bem, sou desses que fazem tudo isso aí em cima. Tenho amigos com quem sou capaz de passar uma noite inteira defendendo o Boromir se tiver cerveja e batata frita suficientes. Mas não durante a exibição do filme. Temos que ter etiqueta.
Se Game of Thrones fosse adaptado pra tela grande já imagino os pentelhos recitando os lemas das Casas nas filas de cinemas...
Mas na fila do cinema pode.
Luís do Vale acabou esquecendo de resenhar a estreia de Game of Thrones.
Eu não acreditava muito em Game of Thrones. Não por duvidar de que a HBO erraria na adaptação dos livros, mas porque a grande quantidade de personagens e o foco no drama e intrigas afastariam o público. Foi a mesma impressão que senti com Boardwalk Empire. Mas aí me enganei e, além de deixar o escritor George Martin e os envolvidos na produção do seriado cheios dos dinheiros, Game of Thrones foi uma das séries mais assistidas e baixadas (contribuí pra isso) de 2011. Conheço gente que NÃO tem o costume de acompanhar séries e toda semana tá lá implorando nas redes sociais por links do último episódio. Obrigado, George Martin, e obrigado, HBO.
Como os amigos devem saber, a 2ª temporada estreia nesse domingo, dia 1º de abril. Então, que tal recapitularmos como os principais personagens chegaram ao fim da 1ª temporada?
ROBB STARK, CATELYN STARK E THEON GREYJOY – O primogênito de Eddard Stark é proclamado Rei do Norte, e Catelyn está ao seu lado para apoiá-lo, tendo papel importante nas alianças feitas por Robb. Theon Greyjoy, protegido-eufemismo-para-refém da Casa Stark também o acompanha. Aliás, Theon tem seus próprios planos que eu não vou contar, afinal avisei no título do post que não haveria spoilers. Relaxem.
TYRION LANNISTER – Depois de se meter em altas aventuras como prisioneiro de Catelyn Stark e Lysa Arryn, nosso querido Tyrion encontra seu pai, Lorde Twyin, apenas para cair em batalha contra Robb Stark e seus vassalos. Recuperado após a luta, recebe ordens de Lorde Twyin pra que siga a Porto Real a fim de orientar o reinado do sobrinho (pentelho) Jeoffrey.
BRAN STARK – Bran e seu irmão Rickon são os únicos da família que permanecem em Winterfell e, com Robb em campanha e Eddard morto, se torna o Senhor do castelo. Força, Bran.
JON SNOW – Quando soube da morte de Eddard e de que Robb reunia um exército pra enfrentar os Lannister, Jon Snow quaaase deixa a Muralha, mas deu meia volta e decidiu servir a Patrulha da Noite. Eu teria ido embora. Pra casa. Comer um pãozinho, tomar um cafezinho... Nada de guerras.
CERSEI E JAIME LANNISTER – Os irmãos que curtem um incesto nas horas vagas, que pena, se separaram. Enquanto Jaime é feito prisioneiro pelo exército do Norte, Cersei se torna Rainha Regente em Porto Real. E continua escrota, porém com classe.
SANSA E ARYA STARK – As irmãs devem ser os xodós do escritor George Martin porque, brincadeira, não sei quem sofre mais. Sansa pena na corte de Porto Real e Arya, disfarçada de menino, segue sob proteção de Yoren, membro da Patrulha da Noite, pra longe do alcance dos Lannister. Ou não.
DAENERYS TARGARYEN – A KHALEESI TEVE FILHOTE! Na verdade, Danny entrou na pira que queimava o falecido Drogo e chocou os três ovos de dragão com que havia sido presenteada, e foi aquele final lindo da 1ª temporada.
EDDARD STARK – Esse continua morto mesmo. =/
A LEMBRAR: Robert Baratheon está morto e seus irmãos Stannis e Renly disputam o Trono de Ferro. MAS, Jeofrey ocupou o lugar do pai. PORÉM, suspeita-se (suspeita-se o cacete, a gente já sabe mesmo) que o Rei infante é filho de Jaime, irmão gêmeo da Rainha Cersei (ou seja, um bastardo). ALÉM DISSO, Robb Stark se torna Rei do Norte e Daenerys dá continuidade a seus planos de ter os Sete Reinos sob o comando da Casa Targaryen novamente.
Luís do Vale acha que Game of Thrones é a melhor novela das 8 já feita.
Por José Linhares Junior
Especial para o Cinema e TV
Como você costuma reagir em relação à violência? Sente-se angustiado? Fica eufórico? E a certeza de estar em uma poltrona de cinema tira de você o gostinho da incerteza em relação ao que assiste? Acredite, Jogos Vorazes irá triturar suas respostas...

O fôlego abandona seus pulmões gradativamente a cada mudança de cena ao mesmo tempo em que você começa a admirar inquestionavelmente a personagem principal. Sim, parece que temos aqui uma volta ao herói no sentido grego do termo. A confusão de Katniss Everdeen é transmitida imediatamente para você e acaba por atirá-lo no pântano da trama. E por mais que você acredite já ter alcançado seu limite, mais está por vir. Não existem barreiras porque a cada minuto uma barreira tomba.

E uma dessas barreiras erguidas e demolidas é o personagem Peeta. O jogo de cenas garante julgamentos concretos que no decorrer da sessão vão se descontruindo para se elevarem aos céus posteriormente. Você irá amá-lo, odiá-lo e desprezá-lo certamente. Não nesta ordem, é claro...
Jogos Vorazes garante ao telespectador desleixado tanta diversão quanto àquele mais criterioso. Os detalhes são peças que podem ser montadas por qualquer um. Se no fim teremos um quebra-cabeça de 25, 50, 60, 120 ou 3 mil peças, vai depender de quem o monta.
O tempero da violência no filme foge do lugar comum e traz a dor para a esfera da angústia. Por mais que nesta celeuma de metalinguagem em que nós assistimos quem assiste a trama a violência impere, a relação com ela é diferente. Talvez seja esse o núcleo duro de toda a trama. As sensações que derivam da violência: angústia e euforia.
A segurança do final feliz não deriva nunca da realidade. Por mais que você saiba que tudo é um filme, é Katniss Everdeen que assegura sua esperança.
Enfim, em tempos de subjetividade avassaladora, obras frágeis e customização estética, garantir certezas é algo perigoso. Vamos correr perigo então: você irá adorar Jogos Vorazes...
